Quando homens gestam bebês

O que poderia ser uma expressão similar a “quando a vaca tosse”, se trata de uma realidade para a vida de vários homens conquistando seu desejo de paternidade em todo mundo. Em contramão aos padrões conservadores, a Medicina tem, cada vez, mais se tornado uma aliada da emancipação de pessoas transgênero.

 Esse texto tem a função básica de te lembrar que várias coisas que acreditamos serem verdades absolutas, não o são – como o céu é azul. Como consequência, você terá aqui, caro leitor, um pouco de contato com a área da Endocrinologia Reprodutiva.

Muito provavelmente, a primeira reação ao ler a afirmação de que homens podem gestar bebês é: “Homens podem gestar? Desde quando?”. O ponto de início é compreender o que é ser um homem. Historicamente, por influência social, aprendemos conceitos da vida em sociedade através da assimilação e observação. Assim, hoje no século 21, passamos a entender que um homem é uma pessoa que, muitas vezes, tem barba, muitos pêlos corporais, um tom de voz grave e possui testículos e pênis. Nesse mesmo mecanismo, aprendemos que carros possuem rodas, luzes dianteiras e traseiras e um sistema de partida elétrica. O que ocorre é que um carro, quando inventado no século 18, era bastante diferente do que compreendemos como um carro atualmente. Usando a anedota criada por Rita Von Hunty (2018), um homem viril e respeitado socialmente no século 17 usava perucas, maquiagem e roupas extravagantes.

Ambas as formas de compreensão de “o que é ser um homem” são temporalmente diferentes, pois o conceito que a nossa sociedade ocidental assimilou como padrão mudou. Isso indica que é improvável que nossas representações de gênero sejam fundamentadas por um princípio biológico, que é determinado geneticamente.

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#ParaCegoVer: A imagem à direita (Fonte: Google Arts & Culture) representa o rei Louis XVI da França com roupas extravagantes, maquiagem e peruca. A imagem da esquerda (Fonte: Ford Media Center) se trata de uma fotografia de um carro de 1908.

Portanto, uma vez que o sexo, definido geneticamente, não tem relação sobre como nós, enquanto sociedade, entendemos o que é um homem, fica claro que homens também podem ter útero, vagina e trompas. Logo, quando em condições fisiológicas adequadas, também podem gestar bebês!

Para fins didáticos, uma breve definição. Esses homens que possuem um sistema reprodutivo com útero, ovários e trompas (estruturas geneticamente femininas) são homens transgênero. Isso significa que a sua identidade gênero, que já vimos ser algo cuja representação muda bastante historicamente, não é condizente com o gênero que foi atribuído ao nascimento com base no seu sistema reprodutor. Em resumo: são tão homens quanto aqueles homens que nasceram com um sistema reprodutor masculino.

É possível que o questionamento nesse ponto seja: “Mas eu nunca vi uma pessoa transgênero”. Aqui neste texto estamos tratando apenas dos homens transgênero, mas também há as mulheres transgênero – que possuem mais visibilidade na mídia por uma série de razões. Nomes como Nany People (humorista), Linn da Quebrada (cantora) e Laerte Coutinho (artista) são nomes familiares de mulheres transgênero na grande mídia, mas também há homens transgênero, como o Thammy Miranda (vereador da cidade de São Paulo), que também possuem projeção nacional na mídia.

Independentemente de essas pessoas transgênero serem visibilizadas ou não na grande mídia, são cidadãs brasileiras com os mesmos direitos que as pessoas cisgênero (homens e mulheres que seu gênero corresponde àquele atribuído no momento do nascimento). Um estudo de 2021 realizado por um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Botucatu estimou que cerca de 2% da população adulta brasileira, o que corresponde a aproximadamente 3 milhões de pessoas, são transgênero ou não binárias (assunto para uma outra conversa). Então, mesmo que você não tenha um referencial de uma pessoa transgênero no seu cotidiano, essas pessoas existem. E mesmo que fosse um número menor de pessoas, ainda assim é importante conhecermos essa parte da nossa população (SPIZZIRRI et. al., 2021).

Retomando ao início: como esses homens conseguem ter barba, pêlos corporais, voz grave e ao mesmo tempo gestar bebês? Esse tipo de processo é possível graças a grandes avanços na área da Endocrinologia Reprodutiva, que é a área da Medicina que se debruça em estudar a relação do nosso sistema endócrino com o sistema reprodutivo.

Pessoas transgênero que desejam desenvolver traços e características da sua identidade de gênero que não correspondem ao seu sistema hormonal de nascimento podem fazer um tratamento chamado ”hormonioterapia cruzada”. Desde 2013, a portaria 2.803/2013 do Ministério da Saúde criou o Serviço de Atenção Especializado no Processo Transexualizador, que são serviços de saúde com uma equipe multiprofissional que realizam uma série de atendimentos para atender as pessoas transgênero.

A(O) médica(o) que possui formação suficiente para atender esses pacientes fazem um acompanhamento clínico cuidadoso e prescrevem tratamento hormonal com três objetivos principais: induzir a aparência desejada pelo(a) paciente, reduzir os níveis hormonais do sexo de nascimento e suas características consequentes e manter um nível hormonal do sexo oposto ideal para sua idade (COSTA & MENDONÇA, 2013).

Tratando dos homens transgênero, a testosterona que é prescrita atua estimulando as alterações corporais desejadas e inibindo os hormônios femininos que são responsáveis pela manutenção do ciclo menstrual (e possibilidade de gestação). Aí você me questiona: “Mas como é então que esses homens vão conseguir gestar?”. Esses homens, juntos com suas (seus) parceiras(os), quando decidem tentar uma gravidez, precisam de acompanhamento adequado de um médico(a) bem capacitado na área da Endocrinologia Reprodutiva e Obstetrícia. O que ocorre é a retirada cuidadosa do tratamento hormonal com testosterona e a avaliação se esse homem ainda possui condições fisiológicas de ovular e de manter a gestação (LIGHT et. al., 2014, 2018).

Esses casais que desejam realizar um planejamento familiar necessitam de serviços de saúde devidamente preparados para lidar com esse tipo de cuidado médico e esse tipo de gestação. Infelizmente, esse tipo de atenção à saúde ainda é escassa no nosso país – muitas vezes restrito a grandes cidades. Portanto, se hoje a Medicina é capaz de ajudar homens a gestar, enquanto sociedade, somos capazes também de acolher esses casais e fortalecer nosso sistema de saúde público com uma atenção à saúde também voltada a essas pessoas.

É compreensível algum nível de estranheza sobre esse tema devido ao simples desconhecimento. Mas é inadmissível o preconceito e a falta de empatia com esses esses casais transgênero, que assim como os casais cisgêneros, desejam formar famílias e exercer seu direito constitucional de liberdade e expressão afetiva – de amor.  

 

Agradecimento a Catarina Secundino Tavares de Araújo pelas críticas e correções no texto.

 

REFERÊNCIAS

1.COSTA, Elaine Maria Frade; MENDONCA, Berenice Bilharinho. Clinical management of transsexual subjects. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, [S.L.], v. 58, n. 2, p. 188-196, mar. 2014. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/0004-2730000003091.

2. LIGHT, Alexis D.; OBEDIN-MALIVER, Juno; SEVELIUS, Jae M.; KERNS, Jennifer L.. Transgender Men Who Experienced Pregnancy After Female-to-Male Gender Transitioning. Obstetrics & Gynecology, [S.L.], v. 124, n. 6, p. 1120-1127, dez. 2014. Ovid Technologies (Wolters Kluwer Health). http://dx.doi.org/10.1097/aog.0000000000000540.

3. LIGHT, Alexis; WANG, Lin-Fan; ZEYMO, Alexander; GOMEZ-LOBO, Veronica. Family planning and contraception use in transgender men. Contraception, [S.L.], v. 98, n. 4, p. 266-269, out. 2018. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.contraception.2018.06.006.

4. Spizzirri, G., Eufrásio, R., Lima, M.C.P. et al. Proportion of people identified as transgender and non-binary gender in Brazil. Sci Rep 11, 2240 (2021). https://doi.org/10.1038/s41598-021-81411-

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